Público - 3 de Dezembro de 2002
Barbie e Ken, Os Brinquedos Inimigos Número 1 da Rússia

Natacha e Dima preparam-se para substituir símbolos ocidentais que depravam as crianças russas. Os funcionários do Ministério da Educação da Federação da Rússia também não estão contentes com as populares cartas de Pokemon. Um decreto ordena a sua tradução para russo a fim de proteger a língua russa das "infecções ocidentais". Por José Milhazes, em Moscovo

O Ministério da Educação da Federação da Rússia propôs ao Governo federal a criação de uma comissão que, com a "ajuda de uma metodologia especial", detecte os brinquedos de fabrico estrangeiro que provocam nas crianças "agressão e medo, sexualidade precoce". "O mercado encontra-se inundado de bonecos de produção estrangeira, entre os quais estão alguns que afectam perigosamente as nossas crianças" - lê-se num documento preparado por esse ministério.

A boneca Barbie, da norte-americana Mattel, bem como o seu companheiro Ken são considerados os bonecos importados mais perigosos. Barbie, segundo os funcionários do Ministério da Educação, provoca nas meninas "maneiras e frieza impróprias para a sua idade, bem como sexualidade precoce".

A Igreja Ortodoxa Russa tem a mesma opinião. "Olhai para a boneca Barbie. Trata-se de uma rapariga bem desenvolvida, com cabelos, pernas e sinais sexuais hipertrofiados" - escreve o jornal "Sibirskaia Pravoslavnaia Gazeta" (Jornal Ortodoxo da Sibéria). Segundo este jornal, "a maturidade sexual da boneca Barbie provoca irresponsabilidade e ambições adultas na criança, que começa a manifestar a sua natureza sexual bem antes do que a natureza exige".

O clero ortodoxo também está descontente com o papel de Ken: "O bonitão é apenas uma peça do interior da casa de Barbie facilmente substituível. Ele ou encaixa-se na sua "beleza", ou não. Assim se forma inconscientemente a atitude face ao homem e ao seu papel na vida da família".

O interesse sexual precoce

Os funcionários do Ministério da Educação da Federação da Rússia também não estão contentes com as populares cartas de Pokemon. Um decreto ordena a sua alteração e tradução para russo a fim de proteger a língua russa das "infecções ocidentais". Porém, nem todos os psicólogos russos estão de acordo com estas sentenças. Natalia Grishaeva considera tudo isto um falso problema e chama a atenção para o que pode ser a causa da deformação psíquica infantil: "Afirma-se que a Barbie estimula o interesse sexual em idades muito precoces, mas não existe nenhuma prova científica que o confirme. A televisão, os filmes, as revistas russas para adolescentes e a pornografia na Internet são os responsáveis por esse fenómeno. Isso é que deveria ser regulado".

A fim de travar a ofensiva ocidental, Boris Bukharov, vice-director do Instituto de Brinquedos de Moscovo, anunciou a criação de bonecos alternativos. "Natacha e Dima [substitutos da Barbie e Ken] acabam de entrar na fase da produção", declarou Bukharov, e acrescentando que regressam ao convívio com as crianças russas heróis esquecidos como "Fila, o cão", "Khriucha, o porco" e "Stepashka, a lebre".

Além disso, o russo Died Moroz (Avô Frio) tenta resistir à ofensiva do Pai Natal ocidental com a ajuda das autoridades. As crianças russas são convidadas a enviar os pedidos de prendas não para a Lapónia, onde se acredita residir o Pai Natal, mas para a cabana do Ded Moroz, em Velikii Ustiug, cidade situada no Norte da Rússia.

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