Diário de Notícias - 26/12/02

Brinquedos
Francisco Sarsfield Cabral  

Setenta por cento dos brinquedos vendidos no mundo são fabricados na China, em condições deploráveis. São produzidos sobretudo por mulheres, muitas vezes também por crianças, trabalhando 12 a 16 horas por dia por salários miseráveis, pagos à peça. Descanso semanal, férias e segurança social praticamente não existem. E um Estado autoritário impede reivindicações.

Movimentos reclamando um pouco mais de ética neste negócio têm feito pressão sobre as grandes cadeias de distribuição ocidentais, que se abastecem na China devido aos seus imbatíveis custos de produção. Várias ONG alertam os consumidores para as condições em que são fabricados os brinquedos que compram para os filhos. E as campanhas começam a ter efeito, levando algumas multinacionais a preocuparem-se com os direitos dos trabalhadores chineses.

É uma boa iniciativa. Mas atenção: outra coisa, diferente, será impedir as importações vindas dos países pobres, alegando eles fazerem concorrência desleal aos fabricantes dos países ricos, que pagam bons salários e respeitam a segurança social. É a célebre «cláusula social», solicitada por patrões e sindicatos dos países ricos, numa manifestação de proteccionismo mascarada de preocupações humanitárias.

Também o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan e outros países começaram por exportar artigos de mão-de-obra barata. Daí partiram para uma modernização que lhes permite, hoje, ter direitos sociais avançados. Proibir as importações vindas da China com o argumento das condições laborais ali prevalecentes tornaria ainda pior a situação dos trabalhadores chineses. E dificultaria o desenvolvimento económico da China, única maneira de acabar com formas aviltantes de exploração do trabalho.
 

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