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Público - 20 Dez 02
A CASA ENCANTADA
A Vela da Glória
Por JOÃO BÉNARD DA COSTA
Destaque:
Acreditar que a "vela da glória" é no Natal, quando "a noite é quase meia", está
muito para além de toda a nossa humana memória de muitos Natais, das famílias
que morreram e das famílias que nasceram, do olhar do burro e do olhar do boi
A expressão é de Gil Vicente na Mofina Mendes.
"E porque a noite é quase meia
e são horas que esperemos
seu nascer,
ide, Fé, por essa aldeia
acender esta candeia
pois outras tochas não temos
que acender;
e, sem serdes perguntada,
nem lhes vir pela memória,
direis em cada pousada
que esta é a vela da glória."
Gosto, especialissimamente, dos verbos ante-antepenúltimo e antepenúltimo. À Fé
não se fazem perguntas nem ela as espera. Também não é coisa de memória ou que
venha da memória. A Esperança convoca a memória e não existe sem ela, mesmo que
exista contra ela (ter esperança contra toda a nossa memória de desesperança). A
Caridade nasce da memória e desagua na memória. A Fé não.
Acreditar que a "vela da glória" é no Natal, quando "a noite é quase meia", está
muito para além de toda a nossa humana memória de muitos Natais, das famílias
que morreram e das famílias que nasceram, do olhar do burro e do olhar do boi. É
acreditar que há a mais - como escreveu Péguy - "uma luz maravilhosamente nova".
"Tudo então era novo; o salvador do mundo / Era ainda a criança a brincar na
soleira."
Deus-Menino. Deus-criança. Tão espantosas expressões. Porque, se só nos
guiássemos pela memória, Deus era o velho das barbas ou o adulto crucificado.
Antes de Cristo, depois de Cristo, houve deuses-crianças, deuses-meninos, mas
sempre vistos como filhos ou servidores de deuses grandes, percursores de anjos
e não percursores do Filho do Homem. Seja o que for e como for a nossa ideia de
Deus (apesar de Deus estar para além de qualquer ideia), há uma como que
rejeição de divindade no Jesus do presépio, uma espécie de impossibilidade
racional de conciliar Deus com um bebé. Os Evangelhos quase nos não falam dele.
Há uma frase de Simão a deixar entrever a Maria terríveis coisas no futuro, há a
breve imagem de um menino-prodígio deslumbrando os doutores, mas inquietando a
Mãe porque saiu de casa sem lho pedir, nem lhe dizer para onde ia. Há os
caminhos violentos da Sagrada Família (o massacre dos inocentes). Curiosamente,
essa colossal elipse temporal dos textos canónicos foi a que mais suscitou
imaginações de poetas e pintores. Milhares de Natividades, de Virgens com o
Menino, de Fugas para o Egipto, a custo procuradas nas fontes evangélicas.
Nenhum evangelista nos falou do Menino a brincar ao colo da Mãe, ou do descanso
da Sagrada Família a caminho do Egipto. Se essas imagens são tão insistentes, na
tradição iconográfica e textual, é porque sentimos a necessidade de contrapor à
Paixão a alegria da infância, de contrapor aos mistérios dolorosos os mistérios
gozosos. A imagem da criança é a imagem do todo novo, do "cordeiro divinal"
ainda silencioso.
2 - "Cinco mil cento e noventa anos depois da criação do mundo, ao tempo em que
Deus tirou do nada o céu e a terra;
Dois mil novecentos e cinquenta e sete anos depois do dilúvio;
Dois mil e quinze anos depois do nascimento de Abraão;
Mil quinhentos e dez anos depois de Moisés e do povo de Israel fugirem do
Egipto;
Mil e trinta e dois anos depois da sagração do rei David;
No sexagésimo quinto dos anos preditos pelo profeta Daniel; na centésima
nonagésima quarta Olimpíada;
No centésimo quinquagésimo segundo ano da fundação de Roma;
E no ano quadragésimo segundo do Império de Octávio Augusto.
Gozando todo o universo de Paz, na sexta idade do mundo, JESUS CRISTO, Deus
Eterno e Filho do Pai Eterno, querendo santificar o mundo com a Sua vinda
misericordiosa, foi concebido pelo Espírito Santo, e, depois de passarem nove
meses sobre a sua concepção, NASCEU EM BELÉM DE JUDÁ FEITO HOMEM DA VIRGEM MARIA
NATIVIDADE DE N.S. JESUS CRISTO SEGUNDO A CARNE."
Deixemos o cômputo dos anos e qualquer suposta autenticidade deles. O que está
nesta proclamação do Martirológio Romano é a outra imagem do texto vicentino. É
Jesus Cristo a entrar na história, através da memória e da cronologia. Segundo a
Fé. Segundo a Carne. E - sempre - segundo a Palavra. O Verbo fez-se Carne.
3 - Cito agora, um excerto do Cântico do Natal de Santo Efrém:
"Ó Deus incompreensível, por Ti começo e com a Tua Graça terminarei. Começo pela
Tua sujeição; encho a minha boca com os Teus tesouros. Eu sou o campo e tu o
lavrador; por isso, Tu, Tu que te semeaste na Virgem puríssima, semeia a tua voz
na minha voz fraca. Filho, saíste do Pai como um raio de luz, e de Maria como
colheita não semeada.
Maria deu à luz o gigante dos séculos, o gigante dos milagres, aquele que estava
escondido na essência do seu pai, no seio da Divindade. A Virgem divina
estreitava-o nos seus braços, abraçava-o, beijava-o, precipitava-se para ele.
Jesus, deitado na manjedoura e envolvido em faixas, olhava para sua mãe e
sorria. Se começava a chorar, a mãe dava-lhe o seio, cobria-o de beijos,
embalava-o no seu colo e ele calava-se...
Umas entranhas te trouxeram, uma manjedoura te bastou, Simeão tomou-te nos
braços, ó Deus imenso. E assim Tu vieste, circunscrito, palpável, contido num
corpo, fruto tangível, Tu, cuja natureza não conhece limites. E assim Tu vieste
cerrado numa manjedoura. Quem podia traçar limites à Tua essência? E no entanto
assim vieste, fechado em estreitos limites, porque assim o quiseste, Filho
infinito e sem limites!"
4 - Péguy (Eve, traduzido há muito tempo por Manuel de Lucena) disse que "os
grandes olhos fechados sob o arco das pálpebras / já deixavam de ver o seu
imenso reino". E diz também: "E o sangue que mais tarde no Calvário / havia de
cair como um ardente e trágico orvalho / Não era nesta hora de tranquila miséria
/ Mais do que um fio sob os lábios vermelhos."
Na Noite de Natal, vemos o fio na boca, como se voltássemos do Calvário ou como
se a ele ainda não fôssemos? De novo, a memória submissa, ajoelhada com um cão
aos nossos pés. Nunca poderemos saber quem nascerá de novo, depois de caído "em
ardente e trágico orvalho", no Natal seguinte do Natal seguinte. Supremo luto,
suprema cor.
5 - E seja o meu último dom deste Natal, a minha última prenda deste Natal, uma
oração de um missal moçárabe, adaptada por M.S. Lourenço nos mesmos Natais idos,
Natais vindos, em que Manuel de Lucena traduziu Péguy:
"E agora chamamos por Ti, Senhor,
Porque és o Salvador dos homens
E Homem Todo Poderoso,
Porque habitas na Tua Misericórdia,
Na justiça e no perdão.
Move os nossos corações para desejos santos,
Põe nas nossas bocas orações de Paz
E faz com que a nossa vida Te seja agradável.
Não Te pedimos, Senhor,
Que renoves o Teu nascimento no mundo,
Mas antes que nos conduzas à Tua divindade!"
6 - Citei muito. Fui preguiçoso? Acham? Bom Natal!
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