Acabar com o Relato Porno-informativo in Público
Por GRAÇA FRANCO

"Ó mãe, e agora como é que vai ser quando formos jogar contra a Casa Pia?" Assim mesmo. Como se o vírus pedófilo pudesse subitamente atacar nos balneários. Como se alguma coisa pudesse grudar-se, sem remédio, a cada um dos membros da equipa adversária. É que para muitos meninos deste país a Casa Pia é apenas isso. Uma equipa de futebol de outros meninos com quem se cruzam nos campeonatos intra-escolas. Curiosa pergunta tendo em conta que, enquanto estivemos na Bélgica, a questão pedófila quase entrou no nosso quotidiano. Lembram-se do escândalo do Colégio Saint Michel? Ficava ao fim da nossa rua e era lá que todos iam... jogar futebol! Por que será que nessa altura ninguém levantou a mesma questão?

Busco a resposta e encontro-a na desabrida e sórdida narrativa das nossas TV. E na forma como apresentaram, à molhada, todos aqueles meninos (mais de quatro mil), como potenciais abusados, o que, para as cabecinhas de oito e dez anos, anda muito próximo de potenciais abusadores. Nada de semelhante aos sóbrios telejornais franceses e belgas, com uma clara preocupação de identificação dos maus da fita e protecção das suas vítimas. Houve, tão só, uma proliferação de adultos a contar histórias macabras passadas com meninos (ou mais propriamente enquanto meninos!), numa amálgama de imagens chocantes.

Como lembrava, no domingo, Francisco Azevedo e Silva, teria sido bem melhor se as televisões tivessem sabido distinguir o dever de informar que estava na sua posse um filme pedófilo, da tentação voyeurista de o exibir em pleno horário nobre. Isso, como refere o editorialista do "DN", não passa de "pornografia na TV". E a pornografia, aprendi-o com a sociedade belga, não é uma coisa diferente. É apenas a primeira fase, uma espécie de terreno fértil onde germina a mesma pedofilia. Por isso, por lá não se tolera a primeira. Porque ninguém sabe ao certo quando se passa o risco... e o que o faz passar. Sabe-se apenas que do lado de lá está um sem-número de perversões sem nome.

A TVI excedeu tudo o que se podia imaginar. Sábado, pouco passava das oito da noite, quando exibia tranquilamente uma reportagem com imagens pedófilas já de si inenarráveis. Mas não chegava. Faltavam ainda, nas televisões, as imagens de torturas e outras atrocidades cometidas sobre cães vivos durante os treinos das Forças Armadas peruanas. Se havia milhões de espectadores a ver aquilo... esperem pela pancada! Daqui a uns anitos vai ser giro viver e gerir um país em que a criançada se habituou a ver esta dose de violência gratuita, sobre os mais fracos dos fracos, pela hora do jantar... e já nem falo dos anúncios sobre a reportagem seguinte sobre prostituição homossexual. Depois não se queixem!

É urgente que, neste campo, aprendamos com os nossos parceiros e percamos esta verdura de parolos-libertários que nos caracteriza desde que descobrimos a concorrência. Eu sei que a liberdade de expressão não fez ainda três décadas. Mas se não aprendemos a viver com ela correremos o sério risco de a perdermos pelo caminho. E o regresso ao silêncio seria sem dúvida a pior das perdas. Porque nunca será de mais dizê-lo, não fora a imprensa livre (apesar dos seus desmandos) e com a polícia e a (in)Justiça que temos, o Bibi ainda continuaria à frente do negócio. Mas diz-me a experiência que - mesmo no que se refere à questão pedófila - liberdade e responsabilidade podem andar a par.

Quando em 99 cheguei a Bruxelas o sistema judicial do país parecia ferido de morte... exactamente como se encontra o nosso no estado actual. A Bélgica tornara-se um país sem auto-estima... bem à semelhança do que se está a passar connosco.

Tinham passado quase três anos sobre a marcha branca que trouxe para a rua meio milhão de pessoas silenciosas pedindo justiça contra os pedófilos. Mas os quatro anos seguintes continuaram a ser pródigos em notícias sobre o tema. Conheceram-se novos episódios: os casos de Saint Joseph e Saint Michel (o colégio público chique onde estudou o príncipe herdeiro), em que a direcção era acusada de ter silenciado e negligenciado durante anos os abusos cometidos a menores por um dos professores. Repetiram-se os rumores de que a justiça não andava porque os interesses de encobridores se estendiam à política, às finanças, à nobreza, e os boatos de envolvimento de pessoas da própria casa real. Dutroux, preso há mais de seis anos, ainda não foi julgado.

Ali ao lado, em França, uma jornalista desenterrou os escritos "pedófilos" de Cohen Bendit (o herói de Maio de 68) e lançou uma enorme polémica que envolveu toda a geração de intelectuais dos anos 60, com os desconcertantes relatos dos jovens adultos filhos dessa geração, em defesa de uma espécie do direito à inocência dos seus pais. E como se isto não bastasse, juntou-se o despoletar do escândalo dos padres pedófilos da Igreja norte-americana.

Por todo o lado permaneciam os cartazes com uma menina triste a acusar: "O mundo é um sítio perigoso, não por causa daqueles que fazem mal, mas por causa dos que vêem e deixam fazer!" Nas escadarias do Palácio da Justiça as flores e as fotos das crianças desaparecidas continuavam a ser diariamente renovadas. Foi neste quadro que me habituei (ou melhor, nos habituámos... todos lá em casa) a coexistir com essa estranha pressão que parece só agora estar a descobrir-se em Portugal.

Essa coisa que nos faz olhar qualquer adulto como potencial suspeito. Nos parques de diversões, nas escolas, até nos bancos partilhados das igrejas... todos eram potenciais membros da rede... Dutroux escondidos sob a capa de honestos cidadãos.

Ninguém vai à casa de banho sozinho! Nunca! Ninguém se afasta. Ninguém fala com estranhos. O rol dos avisos não tinha fim... E no reverso da medalha o pedido: "Será que pode pegar ao colo o meu filho e dar-lhe um beijinho quando ele chega ao infantário? Em Portugal é normal dar um beijinho..." E a professora a comentar secamente: "Se assim o pretende, e se me autoriza!?"

E a fúria popular a manter-se, a vir à tona de água ao menor sinal. Numa saudável rejeição das mensagens ambíguas. Lembram-se daqueles cartazes a anunciar uma marca de roupa com um homem acorrentado aos pés de uma mulher. Vi-os por lá, vandalizados. Por mãos anónimas. Cientes de que naquela sociedade o diagnóstico estava feito: não há anormalidade "normal" e a pedofilia não era mais vista como uma coisa diferente, mas tão só como o estádio seguinte da pornografia. Há uma doença social grave que começa na pornografia enquanto exploração máxima do outro como objecto (seja no universo hetero ou homossexual) e que vai acabar fatalmente no sadismo, no masoquismo, na pedofilia... Não há maneira de tolerar e defender a primeira e combater a segunda. Já não seria mau se por cá se percebesse esta coisa simples... e um primeiro passo é por fim ao relato porno-informativo.

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