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Público
A 'Censora' Censurada
Por MÁRIO MESQUITA
Sexta-feira, 06 de Dezembro de 2002
A experiência dos espectadores portugueses tem sido particularmente rica em
ensinamentos no domínio de telejornais reservados a adultos. O nosso país está,
como sempre, disponível para dar lições ao mundo
É, sem dúvida, exagerado chamar cruamente comissões de 'censura' às instâncias
encarregadas da classificação dos filmes (ou vídeos e dvd's), com vista a
estabelecer limites etários (ou horários, quando está em causa a televisão), de
forma a proteger determinados segmentos da audiência - em especial, os infantis
e jovens - contra a violência e a pornografia. De onde resulta que o título
desta crónica é excessivo. Visa apenas sublinhar as contradições de uma
filósofa, outrora libertária, agora metida em árduos trabalhos de regulação
televisiva.
O nome da 'censora' censurada - passe o excesso verbal - é Blandine Kriegel,
figura de destaque da filosofia política francesa, que bateu com a porta na cara
do crítico de televisão do "Le Monde", ao abandonar, em plena discussão, o
programa "Arrêt sur image" do canal público e cultural France 5. Interrogada de
forma incisiva por Daniel Schneiderman, criticada, com truculência, por
realizadores cinematográficos, Kriegel optou por sair do estúdio antes do fim da
emissão, repetindo a frase célebre de Maurice Clavel, nos anos 70: "Messieurs
les censeurs, bonsoir!".
No espaço de alguns meses, é o segundo "affaire" político e mediático provocado
pela filósofa Kriegel. O primeiro consistiu em aceitar o cargo de conselheira do
Presidente Chirac, tendo em conta o passado da investigadora que, na juventude,
foi activista da extrema-esquerda maoísta. Verdade seja, o escândalo é de
reduzida dimensão, de tal modo se banalizou este tipo de "passagem". Só se
indignam alguns raros "soixante-huitard" que fazem questão de permanecer
ligados, em espírito, às origens contestatárias.
O relatório Kriegel coloca o acento tónico na violência na ficção televisiva e
cinematográfica, sugerindo que os filmes classificados para "mais de 16 ou de 18
anos", sejam difundidos após as 22h30m. Em matéria de telejornais, a análise é
bastante moderada, considerando-se que, na área da informação, o fenómeno deve
ser resolvido pela "deontologia dos jornalistas e pela regulação a posteriori do
Conselho Superior do Audiovisual". A Comissão entende que "a informação
televisiva está a ser regulada de forma mais correcta do que a ficção". Não é
possível praticar "a política da avestruz", de modo a esconder ao público
juvenil as imagens de "guerras, violências e crimes, dos regimes de ditadura e
de humilhação". Além disso, essas imagens são sempre acompanhadas de comentários
"do apresentador ou do comentador e, quando vistas em família, pelas palavras
dos pais".
Nesse sentido, o telejornal constituiria, por si só, uma educação para a imagem,
mesmo se, por vezes, a tendência para enfatizar a violência, os atentados à
integridade física e à dignidade humana se revela, por vezes, excessiva". Nesta
matéria, o optimismo relativo à informação afigura-se desproporcionado, se
tivermos em conta os cuidados tomados com a ficção. Bom exemplo disso é a cena
do leão que devora, integralmente, um homem, que se atreveu a entrar na jaula
num jardim zoológico em Londres. O habitual video-amador estava presente e
vendeu o filme às televisões, mas enquanto a BBC "editou" apenas o momento em
que o leão avançava para a vítima, alguns canais privados difundiram a refeição
completa do animal. Tal como as narrativas ficcionais, as notícias televisivas
são "construções" em que se podem exacerbar ou conter as componentes
relacionadas com a violência ou o sexo. Aliás, a experiência dos espectadores
portugueses, nas últimas semanas, tem sido particularmente rica em ensinamentos
no domínio de telejornais reservados a adultos. O nosso país está, como sempre,
disponível para dar lições ao mundo
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