Público - 19 Dez 02

O Coração das Cidades
PEDRO STRECHT

"Haja uma cidade de crianças, um espaço, onde só as paredes envelhecem, em que todos tocam como se fosse pele, onde todos vivem como se fosse casa e ninguém se afasta de ninguém, porque não se pode e não ocorre. Haja uma cidade como os dias felizes. Como o dia mais feliz que se possa ter!"

(Miguel Esteves Cardoso)
A forma como organizamos os nossos espaços exteriores, onde vivemos, por onde circulamos, os locais onde crescemos e nos fazemos adultos marcam a forma como nos desenvolvemos emocionalmente. Por outro lado, eles são bem o espelho do que vai na profundidade da mente dos que os constróem, isto é, reflectem e influenciam a vida emocional das pessoas.

Hoje, quando circulamos pelas grandes cidades do nosso país, não podemos deixar de pensar sobre este assunto, e estabelecer alguns pontos de ligação entre a sua organização e a vida emocional dos mais novos. E, bem vistas as coisas, talvez como nunca valha a pena parar para reflectir e, eventualmente, mudar. O que estamos a fazer? Que qualidade de vida estamos a ter e o que andamos a oferecer aos mais novos? Com o estado de conhecimento actual, o desenvolvimento de novas tecnologias e materiais de construção, magníficos arquitectos na nossa praça, um país pleno de belezas e recursos naturais, não poderíamos desejar melhor?

De facto, cresce o número de perturbações de ansiedade e depressivas que mais não são do que uma factura da forma como organizamos o nosso padrão de vida nas grandes cidades. É evidente o desejo de fuga e evasão que muitos sentem, e que faz com que o final de cada semana seja construído como um momento de fuga, de retirada de algo que se torna difícil de suportar. Está claro o anseio de reencontro do homem consigo próprio, em sintonia e melodia com o que o cerca. O melhor exemplo é o que se passa nas vidas de muitas das nossas crianças e adolescentes, e dos sintomas que também apresentam, como as dificuldades de comportamento (hiperactividade, agressividade, défice de atenção), os problemas de sono ou algumas perturbações psicossomáticas.

A primeira ligação fundamental que se pode construir é a de que, para se crescer bem emocionalmente, é necessário tempo e, nesse tempo, um espaço que nos envolva, abrigue, acolha, com limites e fronteiras bem definidas: o nosso espaço familiar, o nosso espaço-casa. Precisamos, pois, de casas em cidades com escala humana, não excessivamente populosas ou distendidas como as actuais fronteiras de cidade região parecem cada vez mais querer delimitar. Para que as pessoas se toquem, se olhem, se conheçam, se liguem afectivamente precisam de estar próximas fisicamente e, para tal, precisam de tempo real para o fazerem. Ora, acontece que cada vez mais tendemos a viver em espaços geográficos mal delimitados, pouco contidos, onde membros da mesma família podem demorar muitos minutos ou mesmo horas para estar próximos uns dos outros. Logo vão dizer que as novas formas de comunicação, como se constata na difusão de telemóveis ou na possibilidade de ligação por Internet, juntam as pessoas porque as colocam em contacto. Mas, se isso acontece, não é menos verdade que o contacto é sempre virtual, não de proximidade e não contempla a real interacção entre pessoas. Sem tempo efectivo, são assim muitas as famílias e as crianças ou adolescentes que gastam uma enorme soma de horas diárias apenas para percorrerem os trajectos casa-escola-emprego. Essa é, provavelmente, uma das razões porque só nos apercebemos da existência de muitos dos mais novos no tempo de fim-de-semana ou de férias escolares e, mesmo aí, não comete grande erro quem disser que os locais mais prováveis de encontro são as grandes superfícies fechadas dos hipermercados ou dos centros comerciais. O sinal positivo é dado pela inquestionável lotação dos muito poucos espaços verdes ou de lazer das grandes cidades, que não raramente se encontram cheios. Ou seja, é muito provável que se mais existissem, mais cheios estariam, o que prova a real necessidade da sua existência.

Por outro lado, outra ponte possível de estabelecer é a de que, para se crescer bem interiormente, o espaço exterior tem que ser bonito, harmónico, cuidado, emocionalmente investido, como sinal de respeito e carinho por
todos os que o habitam. Mas, não raramente, damos conta de demasiados espaços feios, pejados de enormes construções em altura e volume, que se constituem como factores de agressividade para todos. Por certo, a procura de uma harmonia estética não custa muito dinheiro, e inclusivamente pode ajudar a poupá-lo, pois é factor de saúde mental. As crianças moldam-se ao que lhes oferecemos, e isso é tão mais verdade quanto mais pequenas elas são.

Depois, há a necessidade de contacto com a natureza, como espaço de sonho, de desejo, de fantasia, de conhecimento. As árvores são ainda poucas e constantemente massacradas em amputações de troncos que constituem autênticas cicatrizes, e é raro uma criança ver crescer flores em canteiros ou sentir o cheiro de relva perto de si. Os espaços verdes não têm nenhuma correspondência com a construção desenfreada que os aniquilam, num constante ataque à origem, à maternidade, não fosse a natureza frequentemente antecedida da palavra mãe. Os jardins não abundam e, quando se vêem, ou são para não pisar, ou servem insistentemente para depósito de dejectos caninos.

Ligada a esta ideia, vem também a noção de que as crianças e os adolescentes necessitam de espaços de lazer, de brincadeira, que também se situem fora da esfera habitacional. O jogo é um marco do bem-estar e do desenvolvimento emocional: não só potencia aptidões físicas e cognitivas específicas, como promove, por exemplo, a noção de espírito de partilha, amizade e tolerância à frustração. Os parques deveriam englobar recintos para a prática de desportos como o futebol, o basquetebol ou outros, pistas para bicicletas, skates, patins, em locais onde a exploração do mundo extrafamiliar também se pudesse processar. O tempo dos "amigos lá da minha rua" parece cada vez mais uma relíquia do passado das nossas cidades e, se assim for, há uma parte da vida de relação dos mais novos que ficará, seguramente, fragilizada.

Por último, a ideia de rua, bairro, comunidade deve existir, para que exista também um sentimento de pertença. "Eu sou daqui", "esta é a minha equipa" ou"este é o meu grupo" são marcos ou sinais de ligações afectivas, que fortalecem a construção de uma mais segura identidade individual e social, e permitem a existência de âncoras, pontos de suporte e amparo social, que ajudam ao equilíbrio de cada um. São obviamente mais ricos aqueles que
frequentam um clube de bairro, uma paróquia, um grupo de escuteiros, o coro ou a banda local. Existem com eles e por eles; por não estarem ou ficarem sozinhos, estão mais preenchidos e, provavelmente, mais felizes.

Estamos em anos de enorme potencial de mudança e viragem. Nunca como antes o homem, as comunidades, os países, possuem os meios necessários para tornarem as suas vidas e aquilo que as cerca em algo mais equilibrado, tranquilo, belo, feliz. No centro das nossas cidades, deveria cada vez mais existir espaço e tempo para o coração. Para a alma. Para a infância, para a adolescência.

dedicado ao arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles

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