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Público
Investigador Português Publica Livro Que Critica Aplicação da Teoria da
Evolução de Darwin
Por ANDRÉIA AZEVEDO SOARES
Terça-feira, 10 de Dezembro de 2002
"A Espécie das Origens" lançado hoje
António Amorim, do Ipatimup, no Porto, defende que a selecção natural não é um
modelo científico aceitável
Chama-se "A Espécie das Origens - Genomas, linhagens e recombinações" o livro
que o cientista António Amorim lança hoje, às 21h30, no auditório da Biblioteca
Almeida Garrett, no Porto. Engana-se quem pensa que a paródia ao título da
famosa obra de Charles Darwin, "A Origem das Espécies", sugere um diálogo
amigável com ideias do pai do evolucionismo. Pelo contrário, o volume editado
pela Gradiva é uma dura contestação das perspectivas darwinistas.
António Amorim rejeita, numa visão "ferozmente pessoal", a ideia da selecção
natural. Isso porque considera que é uma explicação mais ideológica do que
científica, além de totalitária e circular: "Justifica a coisa e o seu
contrário; tudo e, ao mesmo tempo, nada". O autor é professor catedrático da
Faculdade de Ciências e investigador do Instituto de Patologia e Imunologia da
Universidade do Porto (Ipatimup), na área da genética pura e aplicada. O volume
será apresentado na sessão de lançamento, esta noite, pelo psiquiatra Rui Mota
Cardoso.
A ideia de escrever "A Espécie das Origens" surgiu após um debate, realizado em
2001, aquando do lançamento da tradução portuguesa de "Genoma", de Matt Ridley.
Após ouvir as críticas de Amorim às ideias darwinistas, o editor Guilherme
Valente desafiou o investigador do Ipatimup a elaborar um texto sobre o tema
para a colecção "Ciência Aberta". O resultado foi um livro de 126 páginas, com
dez capítulos escritos numa linguagem acessível ao público em geral.
António Amorim parte de uma generosa oferta de conceitos básicos para chegar, já
na parte final do livro, à enunciação da sua tese antidarwinista. Isso permite
ao leitor adquirir, à medida que avança as páginas, algumas ferramentas
necessárias para compreender a questão central de "A Espécie das Origens":
dissociar a inegável existência da evolução dos pressupostos de Darwin.
"Todos pensam que para falar de evolução é preciso citar Darwin. Ninguém nega a
evolução na área científica. Mas estamos num ponto de viragem no que toca ao
enquadramento teórico dessa mesma evolução. Na minha opinião, o darwinismo é o
último estertor duma forma histórico-natural de ver a biologia", afirma Amorim.
Darwin defendia a existência de um lento processo que envolveria a selecção dos
indivíduos mais aptos, a modificação das espécies existentes e, a longo prazo, o
aparecimento de novas. Para Amorim, essa explicação busca apenas justificar a
extinção e a substituição das espécies. Portanto, é um enunciado que não pode
ser verificado experimentalmente e que não é capaz de prever o que a elas
sucederá nos próximos tempos. Como tal, o investigador afirma que a selecção
natural não é um modelo científico aceitável.
"A previsão pormenorizada dos percursos que o mundo vivo irá tomar nos próximos
tempos é-nos inacessível. Mas nem isso é peculiar da biologia: a física também
já enfrentou este problema quando, por exemplo, verificou ser impossível
analisar a trajectória individual de cada molécula de um gás. Isso não implicou
que fosse impossível calcular a variação da pressão desse gás de acordo com a
temperatura. Também na evolução teremos de assumir a mesma modéstia e,
fazermo-la significará abdicar da presunção de 'explicar' um conjunto de
resultados heterogéneos com uma única abordagem teórica", escreveu o autor.
António Amorim enjeita o desejo do programa neodarwinista de definir um
mecanismo único responsável pela geração da diversidade actual e passada dos
seres vivos. Isso porque, na opinião do professor, uma explicação global e
totalitária despreza a complexidade múltipla que envolve a evolução das
espécies. "Aquilo a que chamamos vida é uma complicação de coisas. Provavelmente
não há uma explicação única para a mudança dessas diferentes formas de vida",
diz o autor.
No que toca à diversidade genética, Amorim refere que "o número de combinatórias
é tão excessivamente elevado que nem que a nossa espécie durasse até à extinção
do Sol não teríamos tempo de ensaiar todas as combinações já existentes - e não
estou nem sequer a falar daquelas que vão surgir nos próximos tempos. O mundo
vivo actual é uma reduzida amostra da diversidade biológica potencial.
Utilizamos poucos volumes dessa imensa biblioteca que temos à nossa disposição".
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