Público - 20 Dez 02

Chega de Desculpas
Por MANUEL CARVALHO

É "inaceitável", como diz Valadares Tavares, que haja jovens condenados ao insucesso apenas por terem tido o azar de nascer numa localidade cuja escola é mal gerida, onde se aceita naturalmente a impunidade de professores irresponsáveis

O estudo sobre a disparidade de notas a matemática em regiões com um idêntico nível de desenvolvimento sócio-económico é mais um importante argumento para se enterrar o discurso terceiro-mundista que atribui ao meio envolvente a principal responsabilidade pelo sucesso ou insucesso escolar. A leitura em malha fina de Valadares Tavares (ver páginas 2 a 5) mostra cabalmente que, em Portugal, há escolas de regiões desfavorecidas que conseguem superar os problemas - que existem - dos alunos de famílias pobres ou de localidades social e economicamente problemáticas para realizar devidamente uma das suas funções essenciais: esbater as fronteiras das origens e promover até aos limites do possível a mobilidade social.

Se uma escola de uma vila alentejana apresenta notas a matemática muito melhores que as de uma escola ao lado é principalmente porque a primeira tem professores dedicados e competentes e a segunda docentes negligentes ou absentistas. Por muito que os mentores de algumas teorias pedagógicas se deliciem com a "formação plena do ser humano" e apregoem o discurso do "coitadinho" sempre que abordam a aprendizagem, a verdade é que uma escola bem gerida, com um quadro de professores socialmente responsáveis e profissionalmente competentes, pode aspirar a quase tudo.

É por isso "inaceitável", como diz Valadares Tavares, que haja jovens condenados ao insucesso por terem tido o azar de nascer numa localidade em cuja escola se aceita naturalmente a impunidade de professores irresponsáveis. E por muito que a insensibilidade de autarcas e o alheamento dos pais menos preparados não concebam o atentado que essas escolas e professores cometem contra o futuro dos seus filhos, é dever do Estado resolver o problema. Com reformas de fundo, passando a gestão escolar para o nível local, concedendo aos conselhos directivos a possibilidade de seleccionarem o seu próprio quadro docente, instituindo mecanismos de avaliação de docentes determinantes para a progressão ou permanência na carreira, entre muitas outras medidas que alguns especialistas em políticas educativas não se têm cansado de prescrever.

São medidas, sabemo-lo, que confrontam o proverbial centralismo do Estado ou o discurso miserabilista de uma corrente pedagógica que olha os professores como eternos incapazes de superar dificuldades e as crianças e os jovens como seres naturalmente insusceptíveis de se adaptarem a uma cultura de trabalho e exigência. Podemos ter de esperar muito tempo até que este caldo de ineficiências institucionais e corporativas possam ruir perante a realidade dos factos e dos exemplos que nos chegam de fora. Mas até lá, assumamos as consequências: milhares de jovens continuarão a ser vítimas de um sistema que tolera sem reagir professores laxistas e incompetentes e escolas com níveis de insucesso tão deprimentes como aqueles que as de Alijó ou Mesão Frio manifestam.
 

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