Ecclesia - 28 Dez 02
A Família hoje

Margarida Gonçalves Neto


Olho a família com um misto de optimismo e preocupação, recusando a ideia de que está em crise, embora aceite que a família de hoje apresenta simultaneamente sinais positivos e negativos.

Atravessando a história em contextos sociais, económicos e culturais tão diversos, a família chega até nós com uma extraordinária resistência, fazendo prova da sua força e razão de ser.

Comunidade natural por excelência, dentro da comunidade social que também constrói, a família está na génese da sociedade, na base da sua existência, na fonte da sua continuidade.

Existe hoje uma consciência mais perfeita do sentido de família. Partindo da dignidade essencial da pessoa e da liberdade, foi-se construindo a ideia irreversível de igualdade entre o homem e a mulher, da qualidade da relação interpessoal, da intimidade conjugal, do sentido de colaboração e partilha do quotidiano, da sexualidade feliz, da procriação responsável, da educação dos filhos, de uma informalidade na aproximação entre todos.

Os sinais negativos vêm das dificuldades de uma sociedade individualista, que se organiza à volta do efémero, do consumo e do imediato, com perda de valores, em crise de espiritualidade, descrente do compromisso e da durabilidade do amor, do sentido do bem comum, sem tempo para parar, reflectir, avaliar.

Sinais positivos e negativos a gerar contradições, paradoxos e tensões vividas como sabemos no dia a dia das nossas famílias.

Quando hoje falamos de família, pensamos na decisão tomada por um homem e uma mulher que um dia descobrem o amor e decidem comprometer as suas vidas num destino comum. É o amor que conduz a uma vida a dois, ao desejo de estabilidade.

Quem ama pede exclusividade. "Ser todo teu para sempre", não é nenhuma imposição, é um grito e um apelo do próprio amor. Amor que é família, quer ser fecundo, contém desejo de fertilidade e desejo de criança.

Por isso o casal recria a sua vida e dá continuidade a si mesmo e ao amor nos filhos que chama à vida.

Homem / Mulher - Amor - Compromisso - Conjugalidade - Família

Quando falamos de família, falamos de uma realidade que nos toca por dentro. É nela que nascemos, que habitamos, que nos habita, onde nos fazemos gente, nos tornamos homens e mulheres, de onde partimos, onde chegamos.

Ao falarmos de família, falamos de nós mesmos.

Até onde vão as nossas memórias, não é a nós que chegamos, mas à nossa família...

Família, rede de relações fortes e íntimas, sentimento de pertença, de aliança, de filiação, de fraternidade, que toca a nossa afectividade mais profunda, a relação com a nossa origem, o nosso crescimento, a nossa morte. Na família fazemos prova da nossa existência, como algo recebido, dependente, solidário.

Nunca ninguém até hoje, conseguiu nascer sozinho...

Habitamos um lugar em conjunto, e ali dormimos, ali comemos, ali comunicamos, ali crescemos. Ser família é viver o quotidiano, a continuidade, a repetição dos dias e das tarefas, a alegria, a festa, mas também a dor e o sofrimento, o inesperado.

A família é a caixa de ressonância da vida e da sua evolução.

No recente Congresso Nacional da Família, esta foi designada como unidade de vida, de afecto, de fecundidade, unidade social, económica, educativa.

Todas estas dimensões fazem-nos olhar a família de hoje, como protagonista essencial da evolução da sociedade.

Os critérios pelos quais se decide a política, se pensa a economia, se constrói a cidade, se orienta a escola, se organiza a saúde, se concilia o trabalho e o tempo livre têm de ser critérios que ponham as famílias no centro das preocupações e as ajudem a desenvolver a suas múltiplas competências.
Família protagonista e impulsionadora da sociedade: no sentido da modernização, da justiça, da paz, da humanização, do equilíbrio da cultura, da solidariedade, da dignidade humana.

Do amor para a vida, da família para a felicidade de todos nós.

[anterior]