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Público
Não Me Grite!
Por JOSÉ VÍTOR MALHEIROS
Terça-feira, 10 de Dezembro de 2002
As notícias são lançadas para a câmara com um violento arremesso da cabeça ou da
mandíbula, com um olhar que se pretende insinuante, acompanhadas por um tom de
desdém, tédio, reprovação, espanto (ou ternura, como nas notícias de
encerramento sobre uma nova cria de hipopótamo).
Que forma e substância estão ligadas já sabemos. Que no âmbito dos media as duas
são duas faces da mesma moeda é sabido.
No entanto, apesar de todos sabermos como são indissociáveis estes aspectos,
tendemos em geral a preocupar-nos mais com aquilo que é dito e menos com a forma
como é dito. A tabloidização caracteriza-se porém tanto pela escolha dos temas
como pela forma da abordagem.
Uma das características da tabloidização da informação televisiva que tendemos a
não discutir em público (porque é difícil de definir, porque envolve questões de
gosto, porque a crítica parece ter aqui um carácter pessoal) é o estilo dos
apresentadores de telejornal.
A verdade porém é que alguns apresentadores (ou apresentadoras, já que Alberta
Marques Fernandes e Manuela Moura Guedes são as lídimas representantes do
género) têm vindo a adoptar um tom e uma atitude cada vez mais vulgares e
agressivos, uma mímica histriónica e disparatada, recheada em muitos casos por
comentários escusados quando não abertamente indecorosos que está a tornar-se a
norma. De tal forma que até a informação da RTP2, antes ocupada pela (não
exactamente discreta) Fátima Campos Ferreira, passou para as mãos da
irrepremível Alberta Marques Fernandes.
As características formais deste estilo de apresentação são fáceis de listar: as
notícias não devem ser ditas mas lançadas para a câmara com um violento
arremesso da cabeça ou da mandíbula, com um olhar que se pretende insinuante,
acompanhadas por um tom de desdém, tédio, reprovação, espanto (ou ternura, como
nas notícias de encerramento sobre uma nova cria de hipopótamo) ou uma mistura
de todos os anteriores. A voz, de preferência grave, deve ser projectada como se
o microfone estivesse no fundo do estúdio, usando a técnica do lançamento de
martelo (rodopio seguido de jactância).
A leitura das notícias e as entrevistas devem ser acompanhadas por trejeitos
modulados palavra a palavra. Alberta Marques Fernandes, com impressionante
mestria facial, consegue arquear as sobrancelhas alternadamente em gestos de
surpresa e reprovação, adejar os lábios, semicerrar os olhos ou abri-los de
espanto ao mesmo tempo que faz pequenos esgares, sublinhando com esta mímica um
texto cujo conteúdo, inocentemente, não tem nada a ver com a encenação. E o que
dizer sobre a liberdade do seu discurso, que nunca se deixa aprisionar nas
regras da sintaxe- nem nos espartilhos da semântica? Manuela Moura Guedes, pelo
seu lado, não deixa passar uma oportunidade de dizer o que pensa, sem o mínimo
pudor, sobre todos aqueles que são objecto das notícias. Ou não será ela a
verdadeira razão porque nós vemos (eles vêem) o canal dela?
Será tudo uma questão de estilo? Será o famoso "estilo da BBC" uma simples mania
britânica? Será admissível que, em vez de nos fazer a leitura das notícias,
estas apresentadores nos dêem "a sua leitura" dramatizada da actualidade,
imponham esta recitação com o exagero inepto de um mau actor, nos exponham a
esta maré negra de calinadas, a este escândalo de brutalidade?
Na realidade não. Porque as notícias devem ser dadas de forma que os cidadãos
possam criar a sua própria opinião e este circo é manipulador e suscita a
reacção acrítica e boçal. Que a SIC e a TVI achem que as audiências merecem este
chiqueiro é compreensível. Que o serviço público não possua um estilo próprio de
dar notícias, contido e rigoroso, não é aceitável.
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