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Diário de Notícias
Ilusão
Francisco Sarsfield Cabral
Os economistas sabem que a nossa fraca produtividade não dá para o nível de
vida que levamos. Temos hábitos europeus de consumo, incluindo o Estado,
que gasta sem freio _ mas a produtividade portuguesa
aproxima-se dos níveis do Terceiro Mundo. Só que as
pessoas querem persistir na ilusão, adiando quanto
possível o embate com a realidade.
Acaba de ser publicado pela Economia Pura um livro, Produtividade e
Crescimento em Portugal, reunindo 14 depoimentos de leitura acessível,
coordenados por Manuel Pinho. Textos de diagnóstico severo, mas também de
abertura para melhores perspectivas. Assim se contribui para que a
opinião pública se torne menos inconsciente.
Sendo os autores de esquerda e de direita, o grau de consenso é grande.
Nenhum duvida, por exemplo, de que só teremos salários europeus quando
tivermos produtividade europeia. Ou de que não importa trabalhar mais,
mas trabalhar melhor, bem como não interessa investir
mais, mas melhor. Ou, ainda, de que está esgotado o
modelo de crescimento baseado na mão-de-obra barata e no
acesso fácil a dinheiro (crédito barato, fundos de Bruxelas).
Precisamos de mais inovação e de menos betão, nas palavras de M. Pinho. E
precisamos de melhores instituições _ desde uma administração pública
menos ineficaz e gastadora até uma justiça que funcione,
passando por mercados competitivos e regulados e por um
sério combate à corrupção.
Nada disto se encontra fora do nosso alcance, por muito que nesta fase
depressiva prevaleça o pessimismo. Não há qualquer fatalidade histórica:
basta querermos mudar, percebendo que o dinheiro não é o essencial, mas
sim a vontade, a inteligência e a capacidade de
organização. E que nada se faz sem esforço. O primeiro
passo é acordar da ilusão.
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