Diário de Notícias

João César das Neves 
Associações de malfeitores

Numa época em que a televisão é uma toxicodependência tornam-se normais os casos de overdose. Portugal nas últimas semanas viveu um episódio destes, em que obsessão noticiosa leva o País a viver uma alucinação colectiva durante semanas. Isto é feito por simples inversão, com a informação a manipular a vida e a vida a desaparecer na informação. O mais incrível é a facilidade com que se dá o passe de prestidigitação.

A imprensa anunciou ter descoberto uma rede de malfeitores para a exploração sexual das crianças e jovens da Casa Pia de Lisboa. Tendo ignorado o caso durante décadas, apesar de queixas e relatos, os jornais só o notaram quando o crime já acabou e a notícia deixou de existir. Se isto é perspicácia noticiosa, não se vê o que possa ser incompetência. Apesar disso, a imprensa congratulou-se efusivamente a si mesma pela descoberta e acusou todos de a terem omitido.

O tratamento jornalístico começou por ser atabalhoado, para acabar numa infâmia quase equivalente ao crime original. O fenómeno foi cuidadosamente mascarado de «pedofilia». De facto, trata-se de algo muito pior, com repetidas violações homossexuais de crianças em situação de fragilidade e dependência, entregues por isso mesmo ao cuidado do Estado. Trata-se de uma barbaridade gravíssima. Mas como a opinião politicamente correcta já só repudia severamente a pedofilia, assim teve de ser classificado.

Seguiram-se exemplos do pior tipo de reportagem, sôfrega, incompetente, desonesta. Baseada em boatos, rumores, opiniões, foram lançadas suspeitas sobre multidões. Falou-se em décadas, em centenas, em redes. Insinuou-se sem provas, perseguiu-se sem bases. Os réus eram identificados por profissões, por cargos, conspurcando toda a classe. Pior que tudo, a imprensa trapalhona lançou a vergonha sobre todas as crianças da Casa Pia, envolvidas no caso sem distinções, sem rigor, sem dignidade.

Daí foi fácil descer à depravação. Rapidamente as reportagens deixaram de ser informação para se tornarem em ... pedofilia. Os mesmos jovens que tinham sido explorados voltaram a sê-lo, desta vez pelas câmaras e em nome
das audiências. Os telejornais foram pornografia, com os apresentadores a anunciar em tom alarve o choque ao público. Não havia qualquer conteúdo a noticiar, era mesmo só devassidão. A imprensa constituiu-se numa segunda rede de malfeitores, agredindo com requintes de violência as mesmas vítimas e os espectadores.

Esta foi a visão do transe da toxicodependência, a parte visível do passe de mágica. Ao mesmo tempo, dava-se o truque de desaparição. Desapareceram um Orçamento de Estado, uma greve geral, até dois atentados terroristas. Mas, mais significativo, foi escondida uma terceira rede de malfeitores.

No meio do fragor, quase ninguém reparou que o Ministério da Educação renovou por mais um ano o protocolo de cooperação com a Associação para o Planeamento da Família (APF), sobre educação sexual nas escolas (ver DN de 26 de Novembro). Os actuais responsáveis ministeriais, fiéis à sua estratégia de declarar políticas meritórias para depois recuar à última hora, entregaram de novo à APF o dinheiro dos nossos impostos e, pior, as
nossas escolas (alegadamente cerca de mil).

Dias antes, involuntariamente, o presidente da APF revelava o grau da aleivosia. Declarou-se preocupado (ver Público de 15 de Novembro) por a educação sexual nos Estados Unidos defender «a abstinência e o adiamento das relações sexuais para depois do casamento». «Esperemos que haja o bom senso para que o modelo não se alastre em Portugal», afirmou. Na educação sexual, o professor «não deve emitir uma opinião, mas agir no sentido de debater, porque existem diferentes posições morais», disse.

Assim se vê como a APF ataca directamente a imensa beleza e valor da sexualidade humana, vivida num amor perene. Felizmente que o tal «modelo americano», que a APF repudia, «alastrou» e alastra há milénios em Portugal e no mundo. Os pais e educadores conscientes é isso mesmo que ensinam aos adolescentes.

Contra isso milita a suposta educação sexual imposta pelo ministério.

Ela não passa de um relativismo demissionário e antiquado, recusado nas sociedades mais avançadas. Debaixo da aparente neutralidade, defende-se um facilitismo cobarde, que promove a irresponsabilidade e o deboche com todos os seus males, que diz combater.

Mas a APF tem razão: existem aqui diferentes posições morais. Debaixo da sua influência, dominarão as «posições morais» da pedofilia e da pornografia.

As últimas semanas manifestaram em Portugal a acção de três associações de malfeitores. A primeira foi denunciada, mas não está identificada, nem se sabe se será castigada. A segunda goza de impunidade e beneficiou de audiências acrescidas. A terceira até foi premiada com dinheiros públicos. Num país em que a informação é toxicodependência, não admira que os traficantes prosperem à nossa custa.
 

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