Público

Ah! Curta Memória...
Por JOSÉ PACHECO PEREIRA
Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2002

Portugal [durante o Governo do eng. Guterres] era um doce e próspero país e os portugueses, na razão directa da sua relação com o Estado benfeitor, conheciam um tempo de maná

Quem falasse há uns anos dos malefícios do Governo do eng. Guterres encontraria uma plateia não só hostil como perplexa perante a cegueira, certamente partidária, do ousado crítico. Tinha lá pés ou cabeça falar contra o engenheiro numa altura em que toda a gente ganhava dinheiro na bolsa, numa altura em que comprar casa, carro, viagens a Torremolinos e a Bora Bora, electrodomésticos e computadores era tão fácil e tão simples. Os bancos faziam propaganda insistindo para que telefone hoje e daqui a meia hora tem o crédito, sem complicações. Não era preciso ganhar dinheiro, só gastá-lo. Toda a gente estava feliz e alguns editorialistas explicavam que o milagre do engenheiro era ter "descomprimido" o país, após a irritação dos tempos de Cavaco Silva.

Clubes de futebol viam à sua frente o maná do Euro 2004, as "golden share" que o ministro Pina Moura deixava por todo o lado destinavam-se a fazer o "núcleo duro" que mantinha o Estado a mandar nas administrações, depois das privatizações. Estas enchiam os golpes do Estado, mas o dinheiro já tinha uma estranha tendência: entrava e fugia pela areia dentro. "Who cares?" O Governo fazia reuniões especiais para apresentar planos de distribuição de fundos, que corriam como água para todo o lado, para as autarquias, para os empresários, para os sindicatos, para as associações patronais. A Igreja usava a sua glória e influência, de forma bem pouco discreta, para louvar um primeiro-ministro católico e nem mesmo a combinação habitual de bispos críticos, um à "esquerda" e outro à "direita", existia. Era tudo de esquerda porque o Governo tinha "preocupações sociais". Os salários aumentavam acima da inflação e medidas "sociais" de distribuição como o Rendimento Mínimo tinham a mágica palavra "garantido", aquela que muitos portugueses associavam à condição de funcionário público, verdadeiro ideal de todos. Viver do Estado, "garantido".

Portugal era um doce e próspero país e os portugueses, na razão directa da sua relação com o Estado benfeitor, conheciam um tempo de maná. Hoje, quando cerca de 90 por cento dos portugueses se apresentam nos inquéritos de confiança como pessimistas face ao seu presente e futuro mais imediato, numa viragem de 180 graus da euforia anterior, seria bom que todos colocassem uma mão invisível na consciência e compreendessem quanto a sua atitude de há muitos poucos anos é a causa dos seus infortúnios de hoje. Muita gente tem culpa, muitos políticos para começar, mas não há na atitude do homem comum, na sua permanente desresponsabilização de tudo o que acontece um importante factor de atraso, uma razão por que nos momentos decisivos faltam forças endógenas para mudar?

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A Rádio Renascença deu uma interessante notícia sobre os "aumentos para os eurodeputados", com todo o rigor e isenção que normalmente usam os jornalistas para tratar dos ordenados dos políticos em democracia. Cito-a tal como está em www. rr.pt/noticia.asp?idnoticia=61652., para que não haja dúvidas.

Anoto em primeiro lugar o interesse habitual e permanente sobre a Europa e sobre o Parlamento Europeu que esta notícia revela. Anoto em seguida o seu enorme rigor sobre a matéria de facto. Na verdade, não sabia que ia "agora" ganhar o dobro do que ganhava antes. Sabia que até "agora" as notícias davam-me a ganhar bem mais do que o que me anunciam agora ir ganhar e nada de parecido com o que pelos vistos, para efeitos deste "mais do dobro", ganho. Desconhecia também que, "entre outras ajudas", o Parlamento me pagava a renda de casa.

Agradeço a notícia e posso fazer um pequeno repto ao jornalista e à Rádio Renascença que é para ver se a gente passa a pagar alguma coisa pela mentira e pela demagogia. Faço aqui um desafio público: se for verdade que durante o meu mandato, "agora", daqui a um mês presumo, eu receber os oito mil euros da noticia, eu dou-os ao senhor jornalista ou à Rádio Renascença para um fundo destinado a formar jornalistas. Se não for verdade, o senhor jornalista ou a Rádio Renascença paga-me os oito mil euros a partir de "agora", para honrar a exactidão da sua notícia. Do mesmo modo, se for verdade que o Parlamento me paga a renda de casa, eu estou disposto a pagar a renda de casa do senhor jornalista até 2004, quando acaba o meu mandato, e se não for, inverte-se a obrigação.

Aqui está pois a mais clara e transparente resposta ao que a Rádio Renascença disse. Então e agora?

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Pergunto-me a mim próprio por que razão os portugueses, a começar pelo Governo, não estão a ajudar os nossos vizinhos galegos a limpar a "maré negra" que lhes coube de azar. Em vez de exercícios um pouco serôdios de nacionalismo, talvez valesse a pena ajudar com todos os meios disponíveis aqueles que já são vítimas de um desastre que nos poderia ter calhado a nós. Parte desse desastre já teve origem no egoísmo nacional, com todas as nações a empurrar o barco para as fronteiras do país do lado, em vez de forma rápida o terem rebocado, quando tal era possível, para o porto mais próximo. Mas se o mal está feito, havia que ser solidário no remédio.

Tal ajuda portuguesa - se é que temos recursos para isso - não impediria que fosse claro que os meios seriam deslocados para as costas do Minho se houvesse ali riscos de contaminação. Para além disso, a experiência ganha seria sempre positiva, para o caso de numa outra altura sermos nós a ter as correntes de feição contrária. Para além de que nos ficava bem ajudar os espanhóis e muito particularmente aqueles com que partilhamos uma herança cultural e linguística muito próxima, os nossos amigos galegos. Ficava-nos bem.

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Pouco a pouco, a questão da pedofilia vai soçobrando no esquecimento mediático, no cemitério de todos os escândalos espectaculares, uma vez esgotada a sua capacidade de mobilizar as audiências.

Aqui vai pois mais uma contribuição para se perceber a hipocrisia com que os "media" tratam o assunto. Esperei até agora para ver se alguém notava, mas pelos vistos a cegueira continua: será que ninguém vê os desenhos animados que a SIC Radical passa às duas ou três da manhã? Neles se anima uma forma típica de banda desenhada japonesa, a manga e, episódio sobre episódio, retratam-se cenas de violência sexual e violação de jovens rapariguinhas de colégio ou liceu, de soquetes e uniforme, claramente pré-púberes ou no início da puberdade, por monstros com cem pénis, alguns dos quais são metamorfoses dos zeladores ou jardineiros da escola. Eu posso achar muito interessante esta exibição dos fantasmas sexuais dos japoneses, até para perceber que naquelas cabeças vai muita coisa inimaginável, mas sei o que estou a ver.

Se a questão genuinamente tratada era a da pedofilia, talvez valesse a pena abrir um noticiário das oito passando um fragmento da uma manga, já que parece que a "verdade nua e crua" justifica exibir tudo o que tenha uma bolinha e depois o "pivot" explicar como é que se pode exibir o moralismo exaltado das oito da noite para, às duas da manhã, exibir filmes eróticos que não têm um verdadeiro adulto em cena, mas só crianças e pré-adolescentes.

Serei certamente a última pessoa a propor qualquer censura que não seja a do bom senso e da lei, não partilho das exaltações moralistas que os jornalistas agora descobriram, mas é exactamente por isso que pergunto como é que podem passar filmes pedófilos e sado-masoquistas ao mesmo tempo que se faz campanha contra a pedofilia. Sinceramente, acho que é por ignorância, não viram lá a pedofilia. Mas, pior do que a hipocrisia, é a combinação da hipocrisia com a ignorância.
 

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