Público - 20 Dez 02

Escola de Mértola Já Foi Distinguida pela OCDE
Por CARLOS DIAS

Numa comunidade com escassez de recursos e a sofrer de continuada desertificação, destaca-se o aproveitamento escolar dos alunos a Matemática - conseguem superar a média nacional. Marina quer ir para Medicina. Para ir a Mértola à escola levanta-se todos os dias às seis das manhã. Regressa a casa 11 horas depois.

Esta não é a primeira vez que se ouve falar da Escola Básica de 2º e 3º Ciclo e Secundária de S. Sebastião, em Mértola. Em meados da década de 90, foi credenciada pela OCDE como um dos melhores estabelecimentos de ensino do mundo pelas suas práticas pedagógicas e pela utilização de equipamentos que têm em conta o património cultural da região.

Agora volta a evidenciar-se, no estudo de Luís Valadares Tavares. Os 30 alunos que ali fizeram este ano exame a Matemática, na 1ª fase, superaram a média nacional da disciplina, o que permite ao concelho - onde só há esta
secundária - figurar entre os 20 por cento de concelhos portugueses que detêm as melhores médias. Na tabela, o de Mértola é o que dá mais nas vistas - é o único representante da classe dos mais desfavorecidos em termos económicos e de nível de ensino (Grupo A) a conseguir lá estar.

O que é que se passa em Mértola? Joana Godinho, uma das professoras de Matemática, diz que o mérito "tem essencialmente a ver com os alunos" e que tudo se deve "à boa preparação que já traziam de anos anteriores".

Realça, além disso, o baixo índice de faltas às aulas, o interesse demonstrado pelos estudantes e o elevado grau de participação - atitude que permitiu "cumprir integralmente o programa da disciplina".

Ana Domingos, que também dá aulas de Matemática, sublinha ainda outro aspecto: apesar de a maior parte das famílias de Mértola dispor de fracos recursos económicos, há "um esforço dos pais para que os filhos tenham as condições mínimas para estudar". Na escola, aliás, os alunos "dispõem do acesso a todo o tipo de informação, como qualquer jovem nos grandes centros urbanos", assinala a professora.

O esforço por parte de quem estuda é que às vezes tem de ser maior, porque as circunstâncias não são as mais fáceis. Marina Sanches quer ir para Medicina. Para vir à escola levanta-se todos os dias às seis da manhã. Chega
a casa às 19h00, no lugar de Tacões, na freguesia de S. João dos Caldeireiros. Diz que desde o 5º ano nunca teve queixa de nenhum professor de Matemática. "Foram todos muito bons".

O colega Vítor Medeiros, que gostaria de se licenciar em gestão de empresas, reconhece o papel da sua professora de Matemática, que o levou a gostar de uma disciplina que "é muito complicada". Nídia Santos sonha com a Psicologia e salienta o bom relacionamento que sempre houve nas aulas. "Foi importante para a aquisição de conhecimentos que hoje tenho em Matemática". Pedro Gonçalves dá conta dos interesse dos pais: "Querem sempre ver nos testes a nota que conseguimos. Se é ruim, estamos feitos".

O presidente do conselho directivo, Aurélio Saragoça, vai mais longe na análise e diz que o sucesso da escola de Mértola também se deve ao esforço que é feito no sentido "da responsabilização dos alunos pelo seu trabalho" e "ao apelo insistente" aos pais para participar na vida escolar dos filhos.

Incute-se no aluno, explica, a ideia de que "a escola é um local de trabalho, de exigência, sem que isto implique negar-lhes o acesso ao lazer".

Entre o 7º e 9º ano orienta-se o aluno para a via universitária ou profissionalizante, pois "nem todos querem ou podem ser doutores", observa o presidente do conselho directivo. E aproveita para salientar o diálogo que o corpo docente mantém, a este propósito, com os pais e os estudantes, no sentido de os esclarecer sobre as responsabilidades familiares que a frequência do ensino universitário implica.

Para a alternativa profissionalizante a escola disponibiliza cursos de electricista, de operador de informática e secretariado. Um de mecânico auto está a ser preparado.

O sucesso educativo não deve omitir, contudo, "os handicaps" terríveis, como elevados níveis de pobreza - muitos alunos revelam carências alimentares -, isolamento e disfunções familiares", vinca Aurélio Saragoça. Algumas situações poderiam ser atenuadas com a construção de uma residência para estudantes, que está prometida há mais de cinco anos.

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