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Diário de Notícias
O pornojusticialismo
Oscar Mascarenhas
Leitor amigo, puxe aí de lágrimas de estimação e verta-as sobre este
pungente relatório de maldades e cruezas numa rapariga:
«A ordem foi executada com prontidão. Ataram-me um lenço à boca,
obrigaram-me a abraçar apertadamente a árvore e a ela me amarraram pelos
ombros e pelas pernas, deixando-me o resto do corpo sem quaisquer liames,
a fim de que nada o pudesse preservar dos golpes que ia
receber. O marquês, espantosamente agitado, pegou numa
chibata. Antes de começar, aquele homem cruel quis
observar-me a expressão. Dir-se-ia que saciava os olhos nas
minhas lágrimas e nas contracções de dor e medo que se sucediam na minha
fisionomia.»
Paro aqui. O relato prossegue, ainda mais doloroso, mas paro aqui. Já vejo o
leitor dilacerado. E pensará: Que perversidade! Que terríveis danos pode
um ser humano causar a outro e comprazer-se nisso! Que
coragem a desta jovem em denunciar o que lhe aconteceu!
Pois é. Parece uma denúncia de violências, para que nos fiquem na memória e
não se repitam. Mas não é. O autor deste texto não se celebrizou por
denunciar e repudiar a violência e a crueldade. Pelo contrário, ficou na
História por as incensar e glorificar como suprema estética _ e até abriu
uma escola: trata-se do Marquês de Sade e este trecho aparece a páginas
tantas, escolhidas ao acaso, de Os Infortúnios da Virtude (Presença,
1972, trad. Carlos Grifo), escrito em 1787.
Há, portanto, 215 anos que é conhecida a técnica da perfídia insinuada e
sempre com a fachada de denúncia e repúdio. A razão é sempre a mesma: o
sórdido vende, mas o sórdido vende-se muito mais se vier enroupado de
moralismo. Visto do lado do leitor-comprador _ não estou a falar de si,
leitor, mas de um retrato-robô de leitor, complemento dialéctico deste
tipo de escritor-vendedor _, é algo como as beatas de
aldeia que, passando pela ribeira onde os mocetões se
banham, põem a mão na cara, mas com os dedos bem abertos,
para verem _ fingindo que não.
É neste jogo que se desenvolve aquilo a que chamo o pornojusticialismo
mediático. Não tem nada de novo. Mas rende. À brava. Por isso, está na
moda. Por isso, aparecem os seus defensores, com a
armadura de um discurso de Quixote e um caderninho de
facturação de Sancho Pança. Sabe o leitor de quê e de
quem estou a falar: da delinquência e dos delinquentes do costume.
Mas então, os jornais e as televisões não devem mostrar o horror, a
violência? Devem cobrir a vida com um manto cor-de-rosa e tornar-se
cúmplices do que é perverso e de quem é criminoso? De modo algum: há
violência e perversidade que não podem deixar de ser mostradas. A chacina
do cemitério de Santa Cruz tinha de ser mostrada. O
sofrimento daquele jovem desfeito em sangue tinha de ser
mostrado. A barbaridade tem de ser mostrada. Quando?
Quando não possa ser entendida sem ser mostrada. Quando é
absolutamente incontornável. Só então.
O jornalismo sério tem de conviver com a crueldade _ ninguém o duvide. Mas
algo distingue o jornalismo de denúncia séria da perversidade daqueloutro
a que chamo pornojusticialismo: o primeiro propõe sempre
que seja o público a formar os juízos de valor de um modo
responsável, por isso multiplica os ângulos de visão; o
segundo quer intoxicar o público, para provocar reacções
em cadeia e retouçar-se no chavascal.
oscar.mascarenhas@dn.pt
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