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Correio da Manhã
LUIZ ANDRADE: HÁ LIMITES PARA AS AUDIÊNCIAS
Na primeira entrevista, após ter assumido o cargo de director de programas da
RTP, Luiz Andrade, disse à Lusa que, com menos dinheiro, vai conseguir "melhorar
a programação da estação, com uma grelha de qualidade em 2003". Caso contrário,
apresentará a demissão.
Pedro Catarino
Luiz Andrade quer uma televisão mais equilibrada "É evidente que gostaria
de ter mais dinheiro", mas "garanto que vamos conseguir melhorar a programação
da RTP, porque, caso contrário, demitir-me-ei no dia seguinte", assegurou.
Nomeado para o cargo, há três meses, afirmou que vai lutar pela melhor audiência
possível, sem abdicar da qualidade da programação, acrescentando que "as
privadas vão arrepender-se do que estão a fazer".
Luiz Andrade elogiou o cinema da concorrência e a informação da SIC e da SIC
Notícias, mas disse não conseguir ver o horário nobre daqueles dois canais. "O
mal das privadas foi o de terem entrado numa loucura pelas audiências, em que a
RTP durante algum tempo também entrou, que está a conduzir à falta de qualidade
e ao cansaço do público", afirmou Luiz Andrade.
"É preciso perceber que tipo de programas pode apresentar uma estação de serviço
público. Por exemplo, o programa 'Fábrica de Anedotas', que tínhamos na RTP, não
me parece digno de uma estação como esta", disse. "O serviço público é tudo o
que são programas com qualidade, que sejam feitos com critério, e que possam
interessar ao público", explicou. "Hoje em dia há um grande desrespeito:
anunciam-se os programas para uma hora e são exibidos noutra, colam-se programas
uns aos outros sem intervalo, contra-programa-se sem regras, enfim, isto é matar
a televisão".
"Penso que tem de haver limites para as audiências". A RTP "tem de fugir deste
cenário" e "está a trilhar um caminho certo e que é irreversível".
Para o novo ano, Luiz Andrade preparou uma programação "para toda a família",
com "bom gosto e sensibilidade", que vai mostrar "qualidade" e "originalidade".
"Fazer ficção custa muito dinheiro e por isso não vamos apostar em mais nenhuma
novela", depois de 'Lusitana Paixão', um original de Moita Flores, baseado em
obra de Eça de Queiroz. "Novelas é coisa que os outros canais têm feito e até
com melhores resultados", sublinhou.
Olhando para a empresa, Luiz Andrade afirmou que "o problema da RTP é ter
dinheiro a menos e pessoas a mais". "Temos de ter a dignidade de dizer a
verdade. Havia locais nesta casa em que as pessoas passavam o dia a olhar para o
tecto".
O director conclui que "redimensionar uma empresa como a RTP não é tarefa
fácil", daí "perceber" a demora na decisão governativa sobre o número de canais
do operador público. "Um só canal obrigaria a repensar muita coisa, porque é
impossível conciliar dois tipos de programação tão diferentes", afirmou. "Com os
dois canais teremos uma grelha mais equilibrada", com "cinema europeu e artes de
palco, continuando a procurar um posicionamento mais voltado para as minorias".
NUNO SANTOS PODE SUCEDER NO CARGO
Luiz Andrade assegura que "quando sair da direcção de programas" da RTP "é tempo
de ir para casa". E deseja deixar a estação "numa situação mais estável" do que
encontrou e com "gente jovem" a comandar.
"Quando foi altura de escolher o director-adjunto eu quis que fosse um jovem,
porque queria ter perto de mim alguém com um perfil como o de Nuno Santos, que é
alguém que eu admiro muito". Luiz Andrade apontou "a grande cumplicidade"
existente entre os dois e considerou Nuno Santos com "capacidade" para sucedê-lo
no cargo.
"Vou entrar como director de programas na nova empresa, a convite da
administração reconfirmado ainda recentemente. Sou eu que direi o momento em que
quero abandonar e isso vai acontecer", garantiu. "Depois da casa arrumada e
depois de dar tudo o que podia à RTP, então eu sairei".
PERFIL
Actual director de programas da RTP, Luiz Andrade, 67 anos, não ocupa o cargo a
prazo e diz ter sido escolhido "devido à capacidade de criar consensos".
"Quando sair da direcção de programas é tempo de ir para casa". Luiz Andrade foi
cantor, ingressou na RTP como realizador, tendo-se destacado à frente de alguns
dos programas mais emblemáticos da estação.
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