Publico

A TEMPO E A CONTRATEMPO
Segunda-feira, 09 de Dezembro de 2002

por Mário Pinto

1. O País estará em estado de choque por se terem destapado agora, depois de mantidas tapadas ao longo de muito tempo, redes de prostituição de menores, com actos criminosos de sedução, violação e intimidação de crianças. O nosso Povo, que é filósofo, diz que "o diabo tem uma capa com que tapa e outra com que destapa".

É verdade que tradicionalmente se tinha uma tal vergonha dessas coisas que, não só a opinião pública, como até a própria lei e a jurisprudência, hesitavam entre esconder dolorosamente e punir clamorosamente. O que convinha ao diabo. Hoje, verifica-se uma mudança de mentalidade: se a repugnância se mantém, e felizmente até aumenta, deixou contudo de haver o mesmo pejo em revelar, divulgar e exibir. E com isso se tornou mais facilitado perseguir e punir. O que paradoxalmente talvez também convenha ao diabo.

É à comunicação social (especialmente à televisão), como já foi justamente reconhecido, que se atribui o mérito de romper aquelas tradicionais inibições. Mas haverá, por detrás de tudo, uma mudança de sensibilidade, de pudor, de cultura. Com efeito, parece que já não é apenas o desejo do minuto de glória pública que pode explicar certas entrevistas e declarações na televisão, visto que várias personagens falam, umas, a coberto de anonimato, e outras, contando misérias próprias, verdadeiramente indizíveis.

Seja como for, há nesta novidade, que é facto próprio de televisão, duas faces: a dos protagonistas, que parecem revelar prazer em contar o que dantes era pública e decorosamente incontável; e a do público, ávido de ver e ouvir, tanto mais quanto mais sórdido e escabroso for. A maior mudança estará do lado dos protagonistas televisivos, e sua mediação. Porque, quanto ao público, provavelmente não há muito hoje de novo, desde o tempo em que acorria para ver torturar condenados a penas cruéis e à execução capital. A televisão facilita este género de espectáculos, com a comodidade do conforto do lar e do incógnito (o telespectador não é visto enquanto vê). Fazendo disso um negócio milionário, que tenta alargar e diversificar por todas as potenciais áreas de exploração. A vida política não lhe fica alheia.

2. Com efeito, a vida política também se tem transformado em função desta mediatização. O fenómeno, entre nós, foi evidenciado desde a cobertura do desastre da ponte de Entre-os-Rios, cujos excessos chegaram a provocar protestos. Mas recentemente tem continuado, especialmente pela sucessão de inquéritos e audições parlamentares sobre alegadas responsabilidades políticas de membros de Governo. Mais do que como órgão Legislativo do Estado, que realmente é, o Parlamento tem vindo a ser evidenciado sobretudo como constante mercado mediático de suspeições políticas contra o Executivo (que lhe compete fiscalizar, diga-se).

Constituiria um sério problema se o Parlamento, órgão fundamental da democracia representativa (sublinhe-se: representativa), vendesse a sua alma nos leilões do comércio, fosse dos votos, fosse dos média. Num caso e noutro, teríamos demagogia, em vez de democracia representativa. De facto, o poder da televisão, como todo o poder nu, tanto pode servir o bem, como o mal - conforme a finalidade e o modo do seu exercício. Tanto pode servir a democracia participativa, como a pura demagogia.

3. Há ainda um outro aspecto que me impressiona. É que, a avaliar como as coisas têm vindo a ser contadas e tratadas mediaticamente, parece que se vai confirmando a ideia simplista de que, de tudo o que sucede na sociedade, inclusive no foro moral, a suspeição vai sempre e sobretudo sobre os governantes.

Houve um tempo em que, do lado então politicamente correcto, se proclamava: "tudo é político". Bati-me contra isso. Hoje, aquela tese já não é ideologicamente apresentável; mas vai sendo posta nas práticas.

Não quero que alguém pense que nego existirem responsabilidades políticas dos ministros. O que digo é que a sua inflação demagógica as desvanece democraticamente. Caricaturalmente, dir-se-ia que já não há moralidade, e só resta a política. Que já não há Administração Pública e Magistraturas de Estado, mas apenas sindicalistas. Se um corpo como a Guarda Republicana se vê atingido pela corrupção de alguns dos seus membros, o que declaram os representantes associativos dos membros dessa prestigiada corporação é uma crítica aos seus mais altos dirigentes, como se os guardas fossem inimputáveis. Na luta que alguns ilustres magistrados felizmente querem empreender contra o crime, lá se insinua uma desresponsabilização corporativa à conta de uma crítica que, bem ou mal, pareceu dirigida ao Governo, mas atingiu verdadeiramente o Estado de direito: "só ficam na cadeia os pobres diabos". Quando se pergunta o que possa ir mal nas universidades, o que respondem os alunos é que falta verba, culpa do ministro. Se alunos mais novinhos também se manifestam, o que dizem é que o ministro não dá educação sexual, nem instalações e outras contribuições materiais. Só a esfera de acção e de responsabilidade dos governantes está sempre em causa. Do resto, não se fala; e, consequentemente, é como se não existisse. Os cidadãos, sobretudo mais jovens, vão aprendendo a apontar sempre os únicos responsáveis por tudo.

Defendo que um certo afunilamento sistemático de responsabilidades, tudo reconduzindo à política e aos governantes, constitui um empobrecimento da democracia, gera alienação cultural e analfabetismo cívico. Uma sociedade em que os cidadãos, funcionários públicos e magistrados não observassem os deveres da moralidade e não cumprissem escrupulosa e maciçamente os seus deveres cívicos e funcionais, preferindo em vez disso responsabilizar por tudo os Governos, não teria salvação. Seria o estatismo tosco, na sua expressão de alienação social e cultural mais rasteira. Este é o problema da virtude pessoal, de que entre nós não se fala. Virtude pessoal que é o único contributo para uma indispensável riqueza colectiva: o chamado "capital social".

A maior estupidez que um povo pode cometer é alienar-se nos seus governantes. E disso não se livra se sobretudo se concentrar em exigir deles. Sempre me recordo daquele célebre dito eleitoral de Kennedy, que teve
imenso êxito e galvanizou o povo americano: "não perguntes o que o teu País pode fazer por ti; pergunta antes o que podes tu fazer pelo teu País".

Isto, entre nós, soaria a ridículo, não soaria? Pois aí está um bom teste que indica o nosso subdesenvolvimento.
 

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