Público - 11 Nov 05
Viva Campo de Ourique!
Miguel Sousa Tavares
Tarde na manhã de sábado vou ao mercado de Campo de
Ourique, um quadrado ocupando todo um quarteirão e
com entradas por cada um dos lados dos pontos
cardeais. Cheira a fruta e a legumes, ainda
orvalhados da terra, cheira a cebolas, a coentros, a
maçãs e a laranjas: nenhum supermercado cheira
assim. Uma peça de fruta nunca é igual à outra, há
que escolhê-las uma a uma, porque algumas têm bicho
e outras não, algumas estão maduras de mais e outras
ainda verdes. Saboreio este prazer de escolher peça
a peça a fruta e os legumes, as saladas e os
temperos, sem ter de levar, e sem poder escolher,
embalagens já prontas de fruta asséptica e
normalizada, legumes de sabor sempre igual trazidos
de Espanha em camiões TIR pelas auto-estradas que
construímos para lhes facilitar a vida. Aqui, até há
pêras de Alcobaça, grandes e castanhas, em que se
tem de pegar delicadamente para que o seu sumo não
escorra pelas mãos, há tangerinas e laranjas que não
vêm de Israel já com o selo colado na casca, mas dos
pomares que ainda restam à volta de Lisboa, há uvas
tardias, mas moscatel ou D. Maria genuínas, e não
aquelas uvas monstruosas e que não sabem
rigorosamente a nada, que vêm da África do Sul e que
encontramos inevitavelmente, como sinal de
boas-vindas, nos quartos de hotel em qualquer
paragem do mundo. E há frutos secos a granel e a
peso: figos, passas, castanhas, ameixas, amendoins,
pinhões, nozes. E azeitonas verdadeiras e tremoços,
meu Deus!
Depois vou até às bancas de mármore das peixeiras,
onde o peixe vindo de madrugada de Sesimbra ou de
Peniche brilha com uma humidade prateada, misturada
com uma quase imperceptível camada de gordura ainda
à flor da pele, sinal iniludível da frescura do dia.
O sol da manhã de Outono entra disfarçado pelas
janelas altas do mercado e reflecte-se nos olhos dos
peixes, que repousam nas bancas como se ainda
estivessem vivos. E eis o peixe mais fantástico do
mundo, esse verdadeiro luxo que ainda nos resta:
pregados, linguados, imperadores, salmonetes,
besugos, carapau francês, peixe-galo, garoupa,
cherne, lulas e choquinhos com tinta: tenho pena do
resto do mundo dito civilizado, onde nem sequer se
conhecem os peixes pelo nome!
Um bairro para viver tem de começar assim: com um
mercado que é uma festa para os sentidos, um
regresso aos sabores e aos cheiros que nos educaram.
Campo de Ourique começa assim e continua depois, com
tudo aquilo que faz deste bairro quase um milagre de
espaço urbano perfeito: ruas largas, onde se
passeiam casais, carrinhos de crianças e empregados
no intervalo do almoço; comércio tradicional e
personalizado, com algumas lojas ainda conhecidas
pelo nome dos donos - a florista, o cabeleireiro, a
loja de comida feita, o electricista, o oculista, a
loja de ferragens, a papelaria-tabacaria, a casa das
fechaduras, a loja de surf; e os cafés, com
esplanadas conquistadas ao passeio e ao
Millenium-BCP, com os seus quiosques de jornais
cujos donos nos conhecem já tão bem que os dias nem
sequer começariam sem o bom-dia deles. Campo de
Ourique tem tudo isso, mais o jardim central, os
seus pequenos restaurantes de culto, os seus
excêntricos ou loucos já familiares a todos. Outras
coisas felizmente não tem e muito do prazer de andar
nestas ruas deve-se a essas ausências: prédios em
altura e de fachadas preconceituosas, porteiros e
seguranças de prédios, polícias de trânsito a tentar
tornar a vida impossível. Aqui funciona como que uma
auto-regulação da via pública, com um sentido
natural de comunidade, em que ninguém se mete com os
outros e toda a autoridade se torna dispicienda
graças ao respeito mútuo pela liberdade de cada um.
O melhor exemplo deste espírito de liberdade e
tolerância mútua que aqui presenciei é um exemplo
muito politicamente incorrecto, ocorrido manhã cedo,
no café onde sempre tomo o pequeno-almoço. Uma
senhora, cliente habitual, pediu um café e acendeu
um cigarro. Nessa altura, um sujeito que eu nunca
ali tinha visto e nunca voltei a ver, empertigou-se
todo e, rico de novos conhecimentos adquiridos,
interpelou-a: "Minha senhora, o cheiro do seu
cigarro está-me a incomodar!" E ela, sem sequer se
voltar, soltou de lado, mas alto e bom som: "Olhe,
também o seu cheiro me está a incomodar, mas eu não
lhe ia dizer nada." E o intruso saiu, de rabo entre
as pernas e perante os sorrisos cúmplices dos
habituées (oh, eu sei, um bando de selvagens!).
Pensando na explosão de ódio e de revolta que agora
se vive à roda das cidades francesas, naquelas
comunidades inteiras de populações imigrantes que
não se sentem ligadas cultural e afectivamente aos
locais onde vivem, que vêem o bairro como uma prisão
e a rua como um terreno de confronto, dou-me conta
até que ponto Campo de Ourique (não sei se por
gestação espontânea, se porque alguém planeou e
previu bem as coisas) é um bairro modelar, em termos
de integração social interclassista e
intergeracional, de justo equilíbrio entre comércio,
serviços e habitação, entre espaços públicos e
privados. E, afinal, este tão raro exemplo de
harmonia e qualidade de vida urbana não precisa de
nenhuma grande construção de referência, nenhuma
urbanização de encher o olho, nenhum centro
comercial (antes pelo contrário, o segredo é não o
ter), nenhuma piscina municipal nem pavilhão
gimnodesportivo, nenhuma rotunda com canteiros e
estátuas pseudomodernas, enfim, nada que encha o
olho e que mostre dinheiros públicos ou fortunas
privadas. Apenas bom senso, sentido de equilíbrio e
proporção humana. Depois, as pessoas fazem o resto:
andam na rua sem pressa nem atropelos, param para
conversar à porta das lojas, saúdam-se nas esquinas,
passeiam as crianças, os velhos ou os cães, namoram
ou lêem o jornal nas esplanadas, almoçam a horas
certas na sua mesa de sempre dos seus pequenos
restaurantes, numa palavra, vivem a cidade, não se
limitam a sofrê-la ou a passar por ela. Certamente
que aqui também há gente triste, sozinha, com vidas
terríveis. Mas, pelo menos, a rua não os agride:
conforta-os, distrai-os e, acima de tudo, dá-lhes um
sentido de pertença a uma comunidade - que hoje é
coisa tão rara e tão preciosa numa cidade, como o
são o peixe, a fruta e os legumes do mercado de
Campo de Ourique.
Sei que este texto pode parecer um bocado absurdo,
no meio desta eterna agitação em que vivemos. Mas
trata-se de uma dívida de gratidão para com o "meu"
bairro, que eu precisava de saldar um dia. E também,
já agora e aproveitando a oportunidade, trata-se
igualmente de um apelo que faço a quem manda e a
quem pode: por favor, não estraguem Campo de Ourique!
Não é preciso muito: basta não fazerem nada.
Jornalista