Em Portugal, o consumo de
cocaína tem vindo a aumentar entre os mais
novos, em especial nos jovens com idade
escolar entre os 13 e os 15 anos. Estes
dados constam do relatório ontem divulgado,
‘Tendências por Drogas em 2004’, do
Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT).
Segundo o documento, a
população escolar do 3.º Ciclo do Ensino
Básico e a população reclusa evidenciaram
prevalências de consumo de cocaína ao longo
da vida superiores às de heroína. “No
contexto dos consumos problemáticos, a
cocaína apareceu frequentemente associada ao
consumo da heroína”, lê--se também.
Mas não são só estes dados a causar
preocupação. A par do aumento do consumo de
cocaína em Portugal, também o de haxixe está
a crescer, revela outro relatório de 2005,
desta feita do Observatório Europeu da Droga
e da Toxicodependência (OEDT). ‘A Evolução
do Fenómeno da Droga na Europa’ foi ontem
divulgado em Bruxelas e avalia o fenómeno da
droga no espaço europeu.
MAIS CONSULTAS
João Goulão, presidente do IDT, considera
que os dados apresentados no relatório do
OEDT têm correspondência com a realidade
nacional. “Há uma ligeira diminuição do uso
de heroína mas há, em contrapartida, um
aumento do uso de cocaína e de haxixe.”
Cerca de 68 por cento dos processos por
consumo de drogas de 2004 estavam
relacionados apenas com canábis (66 por
cento com haxixe e apenas dois por cento com
liamba).
A canábis é, por outro lado, a substância
que fez aumentar em dois por cento o número
de primeiras consultas para tratamento (12
por cento em 2004 face a dez por cento em
2003).
“O número de pessoas que pedia ajuda para se
libertar da canábis era praticamente
irrelevante”, frisa João Goulão. “Em 2004, o
número de primeiras consultas por esta
substância aumentou dois por cento.”
CULPA DO GOVERNO
O aumento do consumo de drogas em Portugal é
fortemente criticado pela Associação para
Portugal Livre de Drogas, que aponta o dedo
à política seguida pelo actual Governo e
aplicada pelo IDT.
“Nos últimos seis anos houve um acréscimo em
44 por cento do número dos consumidores em
idade escolar [16-18 anos] e um aumento da
criminalidade associada ao consumo”, acusa
Manuel Pinto Coelho, director daquele
organismo. “A somar a este grave problema
social assistimos a uma diminuição dos
traficantes detidos e esta é a consequência
das políticas tomadas pelo Governo.”
A realidade, segundo conta Pinto Coelho, não
podia ser mais negra. “60 a 70 mil
dependentes de opiáceos (heroína, metadona
ou buprenorfina) e cerca de 100 mil
consumidores de haxixe.”
CONTRA A LIBERALIZAÇÃO
As críticas de Pinto Coelho, fundamentadas
em dados do último relatório do Instituto
Nacional da Administração, expressam o seu
receio – a liberalização do consumo. “A
descriminalização do consumo levou ao
aumento. Se for liberalizado ninguém duvida
que continuará a aumentar o número de
dependentes”.
João Goulão admite que “está para breve a
revisão da lei da descriminalização do
consumo”, que é “taxativa”, quando fixa a
quantidade abaixo da qual a posse não é
crime mas apenas dá azo a multa.
Actualmente, não é considerado crime ter uma
quantidade de droga destinada ao consumo
para dez dias. “As comissões de dissuasão da
toxicodependência também vão ser revistas.”
PORTUGAL COM MAIOR PREVALÊNCIA DO VIH
A percentagem de casos de infecção pelo
Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH)
associada à toxicodependência continua em
decréscimo: 42 por cento do total em 2003
contra 39 por cento em 2004. Mesmo assim,
Portugal continua a ser o país da União
Europeia com maior índice de VIH entre os
Consumidores de Droga Injectável, cerca de
dez por cento. Sublinhando que “a
transmissão da sida, hepatites e da
tuberculose em 2004 se manteve em números
basicamente idênticos aos dos últimos três
anos”, João Goulão, presidente do IDT,
considera que a tendência de estabilização
“só prova que programas como o da troca de
seringas ou de substituição opiácea dão bons
resultados.”
MAIS CRIME ASSOCIADO
Há apenas dois dias agentes da Judiciária
levaram a cabo a maior apreensão de cocaína
em Portugal e a maior do ano na Europa: 6100
quilos. Delitos como este, verificados no
contexto do mercado ilícito de drogas, bem
como os cometidos sob influência delas ou
para financiar os consumos, incluem-se no
conceito de “criminalidade relacionada com
droga”, a aumentar em Portugal, sobretudo
associada à canábis (haxixe/erva).
O relatório ‘A Evolução do Fenómeno da Droga
na União Europeia’, com dados, relativos a
2003, sobre os 25e a Noruega, Bulgária,
Roménia e Turquia, indica os países onde a
percentagem de infracções ligada à canábis
tem aumentado desde 1998, entre os quais
Alemanha e Portugal.
O consumo ou a posse de droga para consumo
próprio constitui a principal infracção na
maioria dos Estados-membros, variando entre
37 por cento na Polónia e 87 na Áustria e
Reino Unido. Outro relatório, relativo a
Portugal, e apresentado também ontem, revela
que as forças policiais realizaram, em 2004,
2439 apreensões de haxixe, 1088 de heroína,
1047 de cocaína, 289 de liamba e 158 de
ecstasy. No caso da cocaína, as quantidades
apreendidas foram as mais elevadas da última
década.
POR CAUSA DA DROGA
CONSULTAS
A oferta e a procura de tratamento da
toxicodependência estabilizou em 2004 no
País.
Verificou-se um aumento ligeiro do número de
utentes na rede pública e convencionada com
o Estado, tanto a nível de consultas como do
internamento (mais um por cento face a
2003). O número de consultas de seguimento
de tratamento da toxicodependência aumentou
quatro por cento face a 2003, atingindo o
valor mais alto nos últimos cinco anos (374
149 consultas).
UTENTES POR REGIÕES
Os distritos de Lisboa, Porto, Setúbal e
Faro são aqueles que registaram o maior
número de utentes em tratamento e também de
primeiras consultas na rede pública de
tratamento da toxicodependência.
SUBSTITUIÇÃO
O número de utentes integrados em programas
de substituição opiácea também cresceu para
19 260 (mais 14 por cento face a 2003).
SOFRER SEM DROGA
A abstinência da heroína provoca grande
sofrimento físico à pessoa, com dores
musculares e alteração das funções
orgânicas, enquanto a ressaca da cocaína
provoca danos psicológicos, depressão e
apatia.
MENOS MORTES
“O número total de mortes relacionadas com a
droga, notificadas pelos Estados-membros da
UE-15 e pela Noruega, baixou de 8394 casos
em 2001 para 7122 em 2002, o que representa
uma diminuição de 15 por cento, embora haja
indícios de que esta descida acentuada possa
estar agora a estabilizar”, conclui o OEDT.
DOENÇAS CONTAGIOSAS
No capítulo referente às doenças
infecto-contagiosas relacionadas com o
consumo de drogas, a agência europeia de
informação sobre a droga afirma que, “nos
Estados-membros da UE-15, os índices de
casos recentemente diagnosticados
mantiveram-se baixos nos últimos anos, com
excepção de Portugal”.